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Direito à Saúde · Cirurgias Reparadoras

O plano negou por telefone. Isso vale?

Por Samir Barbosa dos Anjos · OAB/MT 14.757 Publicado em 7 de agosto de 2026

Não vale, pelo menos não do jeito que a atendente disse. Negativa de cirurgia precisa vir por escrito, com o motivo explicado. Se você só ouviu um "não autorizado" no telefone, o plano ainda deve isso a você.

Vamos com calma, porque essa cena se repete todo dia.

A ligação que ninguém anota

Você liga pra saber se a cirurgia foi liberada. Do outro lado, uma voz educada diz que não, que não foi aprovada, e desliga em menos de três minutos. Nenhum protocolo claro. Nenhum papel. Nenhuma explicação real.

Isso acontece com quem fez bariátrica e carrega excesso de pele que soma quilos e machuca a pele todo dia. Acontece com quem pede mamoplastia depois de anos de dor nas costas e um sulco marcado no ombro pelo peso do sutiã, e ouve que isso é "só estética". E acontece com quem tem diástase depois da gravidez, dor lombar que não passa, às vezes até uma hérnia, e recebe a mesma resposta seca.

Nos três casos, o problema é o mesmo: uma decisão importante foi tomada sem registro nenhum. E decisão sem registro é decisão que não se pode contestar direito, porque falta o motivo escrito pra rebater.

Por que o papel importa mais que a ligação

Existe uma regra que trata disso: anote, RN 395/2016. Ela diz que o plano tem até 24 horas para responder por escrito, seja carta ou e-mail, e precisa explicar o motivo da negativa de forma clara, apontando a cláusula do contrato ou a razão médica usada.

Esse papel é a diferença entre você discutir uma decisão concreta e discutir "um não" solto no ar. Com o motivo escrito na mão, seu médico consegue rebater ponto a ponto. Sem isso, você fica tentando adivinhar o que pesou contra você.

Então o primeiro movimento, sempre, é este: ligue de novo e peça a negativa por escrito. Anote a data, o horário, o nome de quem atendeu, o protocolo. Se possível, peça que mandem por e-mail enquanto você ainda está na ligação.

O que fazer enquanto o papel não chega

Enquanto isso, separe o que já existe do seu lado. Se a sua cirurgia é a abdominoplastia pós-bariátrica, o guia dela mostra a base que sustenta o pedido. O laudo do seu médico é a peça mais importante desse conjunto, porque é ele que explica por que a cirurgia não é escolha estética, e sim necessidade de saúde. Fotos, exames de imagem, relatórios de fisioterapia, tudo isso soma.

Se você ainda não sabe quais documentos juntar, existe um passo a passo detalhado no checklist de documentos para cirurgia reparadora, que ajuda a organizar isso antes mesmo de entrar em contato com um advogado. E se a dúvida é sobre como o laudo médico deve ser escrito para pesar a seu favor, vale ler também sobre o laudo médico para cirurgia reparadora.

Com a negativa escrita em mãos e os documentos organizados, você já tem uma base concreta. É nesse ponto que dá pra decidir os próximos passos com mais clareza, em vez de reagir no susto de uma ligação.

A diferença entre "estético" e "reparador"

Um ponto que aparece nos três casos, cada um do seu jeito, é a etiqueta "estético". A lei que trata dos planos de saúde permite excluir cirurgia puramente estética, sem função de saúde. Mas excesso de pele que causa assaduras, mamas que geram dor crônica na coluna, diástase com hérnia, isso tem nome técnico e função clínica documentada. A palavra "estético" usada na ligação não decide isso sozinha. Quem decide é o conjunto de laudos e exames.

Levantamento próprio do escritório sobre bases públicas do Judiciário mostra mais de 19 mil decisões envolvendo cirurgia reparadora nos últimos anos, incluindo temas de bariátrica, mamoplastia e diástase. Número nenhum decide o seu caso, mas mostra que esse tipo de negativa chega à Justiça o tempo todo, e que documentar cada etapa faz parte do caminho.

Um caminho opcional, com seu custo

Existe a opção de registrar uma reclamação na ANS, a agência que regula os planos (o nome dela é NIP). Ela é sua, sem custo, e vem antes de qualquer outra medida. O ponto fraco: dá ao plano mais um ciclo de resposta e resolve só uma parte dos casos. Pode fazer sentido se não há urgência médica. Mas se a dor já limita seu dia a dia, ou se o quadro está piorando, esse ciclo extra pode custar semanas que fazem diferença no tratamento.

A escolha é sua, e depende do que seu médico diz sobre o tempo que sua saúde ainda comporta esperar.

O que fica

Uma ligação recusando cirurgia não fecha a porta. Ela pede um próximo passo: transformar aquele "não" falado em algo escrito, que possa ser lido, entendido e, se for o caso, contestado com base médica. É esse papel que dá início a qualquer caminho seguinte, seja negociação, seja decisão judicial.

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Perguntas frequentes

O plano pode negar só por telefone e não mandar nada por escrito?

Pode tentar, mas a regra pede resposta formal em até 24 horas, por carta ou e-mail, com o motivo claro. Se só te ligaram, você tem o direito de pedir isso por escrito antes de qualquer outro passo.

Quanto tempo eu tenho depois da ligação para agir?

Não existe prazo pra você reclamar, mas quanto mais cedo pedir a negativa por escrito, mais rápido o caso anda. Se a cirurgia é urgente, cada semana de atraso pesa na hora de levar à Justiça.

Falaram pra eu abrir uma reclamação na ANS antes de qualquer coisa. Vale a pena?

A escolha é sua. A reclamação na ANS (a NIP) é sua e sem custo, mas dá ao plano mais um prazo de resposta e resolve só parte dos casos. Se a cirurgia é urgente, esse ciclo extra costuma custar semanas que fazem diferença.

O médico já me passou o laudo. Isso já basta pra entrar com ação?

O laudo é peça central, mas sozinho raramente é suficiente. Ele precisa vir junto com a negativa por escrito e outros documentos que mostram o histórico do seu pedido.

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Samir Barbosa dos Anjos, advogado
Samir Barbosa dos Anjos Advogado, OAB/MT 14.757, formado pela UFMT. Cuida de casos de cirurgia reparadora negada pelo plano e escreve estes guias pra você entender o seu direito. Conheça o autor

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